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domingo, 1 de setembro de 2013

"Só se vive uma vez"

"A vida são dois dias", costuma-se dizer. "E o Carnaval são três", costuma-se acrescentar. São expressões comuns que reflectem um modo de estar despreocupado e sob muitos aspectos sadio. Apelam a um certo desprendimento das preocupações e cuidados excessivos. Com os bens materiais, com a reputação, com a obsessiva preservação da saúde, com os melindres, e com tantas outras ninharias que nos ocupam em demasia, sobretudo se considerarmos que estamos aqui de passsagem. E a finalidade dessa passagem. o consolador Jesus de Nazaré enunciou mais ou menos a mesma filosofia do seguinte modo: Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã; porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal. (Mateus 6.34) Todos conhecemos a alusão que o Mestre fez aos lírios do campo e às aves dos céus, a quem Deus provê as necessidades, para nos demonstrar que é bem mais importante que busquemos antes o Reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas se nos acrescentarão. É, pois uma questão de prioridades. E são justamente as prioridades que a filosofia materialista inverteu. Se "a vida são dois dias e o Carnaval são três" nos encoraja a não valorizar ofensas, a não nos apoquentarmos com miudezas, a concedermos a nós mesmos uma recompensa ou um mimo, sem complexos de culpa, já o "só se vive uma vez" encerra um certo convite ao excesso e à desresponsabilização. Num mundo sem Deus, numa vida em que tudo vem e regressa ao Nada, num Universo caótico onde o certo e o errado são meras convenções sociais e adaptações genéticas, há que aproveitar. Como? Cultivando a paixão pelo prazer imediato e inconsequente, com excessos de toda a ordem. Se para o ateísmo-materialismo nada tem verdadeiramente sentido nem finalidade, é razoável, ou pelo menos convidativo, viver para a satisfação dos instintos básicos. Se somos apenas matéria, há que viver para a matéria. É natural que quem não acredita ser um ser espiritual não tenha muito apreço por outros valores. As consequências para a Humanidade é que não são nada boas. O político influente governa para seu proveito. O trabalhador humilde mede a sua felicidade pelo tamanho do seu vencimento - e por isso não é feliz. O rico confunde dinheiro com felicidade e amealha dinheiro em vez de espalhar felicidade. Os prazeres da vida passam a ser um fim em si mesmos e não um meio para retemperarmos energias e renovarmos o espírito. É o vale-tudo, porque não há ideais. É nascer, gozar o mais que se pode, e morrer. Não é saudável. Contudo, quem tem da vida uma noção dúplice, de Espírito e matéria, sabe atender a ambos com equilíbrio. Não é ir burocraticamente picar o ponto ao centro espírita, à igreja, ao salão evangélico, à sinagoga, à mesquita ou ao terreiro. Não é cumprir algumas normas externas. É viver plenamente de acordo com a nossa crença em Deus, na imortalidade e no Bem. Além do mais, não se vive só uma vez.

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