radio Atlantec Sea
sábado, 28 de setembro de 2013
Canção das mulheres
Que o outro saiba quando estou com medo, e me tome nos braços sem fazer perguntas demais.
Que o outro note quando preciso de silêncio e não vá embora batendo a porta, mas entenda que não o amarei menos porque estou quieta.
Que o outro aceite que me preocupo com ele e não se irrite com minha solicitude, e se ela for excessiva saiba me dizer isso com delicadeza ou bom humor.
Que o outro perceba minha fragilidade e não ria de mim, nem se aproveite disso.
Que se eu faço uma bobagem o outro goste um pouco mais de mim, porque também preciso poder fazer tolices tantas vezes.
Que se estou apenas cansada o outro não pense logo que estou nervosa, ou doente, ou agressiva, nem diga que reclamo demais.
Que o outro sinta quanto me dóia idéia da perda, e ouse ficar comigo um pouco - em lugar de voltar logo à sua vida.
Que se estou numa fase ruim o outro seja meu cúmplice, mas sem fazer alarde nem dizendo ''Olha que estou tendo muita paciência com você!''
Que quando sem querer eu digo uma coisa bem inadequada diante de mais pessoas, o outro não me exponha nem me ridicularize.
Que se eventualmente perco a paciência, perco a graça e perco a compostura, o outro ainda assim me ache linda e me admire.
Que o outro não me considere sempre disponível, sempre necessariamente compreensiva, mas me aceite quando não estou podendo ser nada disso.
Que, finalmente, o outro entenda que mesmo se às vezes me esforço, não sou, nem devo ser, a mulher-maravilha, mas apenas uma pessoa: vulnerável e forte, incapaz e gloriosa, assustada e audaciosa - uma mulher.
Lya Luft
Preciso encontrar o caminho
Quero encontrar o meu caminho, ser feliz, nem que seja sozinha, só preciso ser feliz, encontrar minha felicidade, seja da forma que for. Às vezes necessito de atenção, mas não sei bem como conseguir isso, sou muito tímida, com isso eu perco muito, as vezes deixo oportunidades passar, deixo palavras ficarem na minha cabeça, deixo argumentos que poderiam ser uteis de lado, deixo pessoas importantes passarem por medo. Acho que preciso de um lugar, um lugar diferente, aonde eu me sinta livre, pra poder dizer o que eu quiser, fazer o que eu quiser, aonde tenha pessoas que me motivem, me façam sentir bem por um todo, que eu não tenha que guardar o que eu quero dizer pra não causar discórdia, confusão e nem nada disso. Eu tenho que ser forte pra aturar certas coisas, e acho que isso eu tô sendo até demais, mas não sei se forte é a palavra certa a ser usada, tenho uma mera impressão que a palavra certa a ser usada é outra. Porque ser forte por não dizer algumas coisas não é ser forte, e sim pequena o suficiente pra não ter coragem ou simplesmente não querer dizer certas coisas pra não magoar ninguém, mas será que nesse ‘jogo’ eu acabo saindo mais magoada do que quem deveria se magoar? Eu sinto que sim. Eu quero mudar, quero mudanças na minha vida, eu quero crescer, aprender, amadurecer mais, quero viver de verdade. Não quero que ninguém me ponha barreiras, quero poder sair, conhecer pessoas novas me divertir, esquecer dos problemas, dançar até cansar, fazer o que tiver que fazer, sem ninguém ficar atrás de mim, me cobrando por qualquer coisa, eu sei meu limite, eu sei até onde é o certo, e sei o que é errado, será que já não basta pra alguém ter confiança em mim? Quero poder viver, sem medo, sem timidez, sem fraqueza. Quero viver sendo quem eu quiser ser, sorrindo sempre que me der vontade, chorar quando me der vontade, gritar quando eu quiser, falar o que eu achar que devo falar. Eu vou viver daqui em diante. Com você comigo ou não, por que hoje isso nem importa mais. Depois de viver tempos e tempos sozinha, eu finalmente aprendi. Não dependo de ninguém pra viver. Eu vou é viver. Cansei de depender de alguém para ser feliz, eu quero ser feliz como eu sou, com o meu viver. Segundos. Esse foi o tempo necessário pra mim perceber que não era mais isso que eu queria, que os sentimentos haviam se misturado com os sonhos, e que eu havia me alienado diante dos meus sonhos, que já nem eram mais tanto o que eu queria. Minutos, tempo necessário pra mim entender como terminar com a minha dor, rabiscar um plano rápido num pensamento e colocar tudo em ação e perceber os resultados quando lágrimas não escorreram dos meus olhos, mas um sorriso brotou com facilidade no meu rosto. Horas, o tempo estimulado, por todos a minha volta, que levaria pra bater o arrependimento, pra começar a desmoronar tudo dentro do meu peito, pra mim voltar correndo pros braços abertos desse sentimento que nos últimos meses só vinha me sufocando. Dias, ou melhor, um dia, foi o tanto que demorou pros meus olhos pousarem em outra face, pra outro perfume invadir minha mente, e outra pessoa entrar dentro dos meus sonhos. Também foi o tempo em que ela permaneceu por lá. Apenas alguns dias. Meses. É o que eu dou a esse novo sentimento que me enche o peito agora, o tempo de férias ao meu coração, já desesperado pra ser preenchido por outro sentimento, que já me bate a porta e me pede para entrar.
Aline Pérola Rocha
CASA ARRUMADA
Casa arrumada é assim:
Um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação e uma boa entrada de luz.
Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um cenário de novela.
Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os móveis, afofando as almofadas...
Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo:
Aqui tem vida...
Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras
e os enfeites brincam de trocar de lugar.
Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das refeições
fartas, que chamam todo mundo pra mesa da cozinha.
Sofá sem mancha?
Tapete sem fio puxado?
Mesa sem marca de copo?
Tá na cara que é casa sem festa.
E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança.
Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde.
Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante,
passaporte e vela de aniversário, tudo junto...
Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente bem-vinda.
A que está sempre pronta pros amigos, filhos... Netos, pros vizinhos...
E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca
ou namora a qualquer hora do dia.
Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar com a cara da gente.
Arrume a sua casa todos os dias...
Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo pra viver nela...
E reconhecer nela o seu lugar.
Carlos Drummond de Andrade
domingo, 22 de setembro de 2013
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